Lavagem nasal feita da forma errada pode causar otite; veja os principais erros
A lavagem nasal com solução salina tornou-se uma prática bastante popular entre crianças e adultos. Quando realizada corretamente, pode ajudar na higiene das fossas nasais, na remoção de secreções e no controle dos sintomas de doenças como rinite, rinossinusite e infecções respiratórias.
Entretanto, a falsa impressão de que se trata de um procedimento totalmente inofensivo pode levar a erros. O uso de pressão excessiva, volumes inadequados ou técnicas incorretas pode favorecer a passagem de secreções da região nasal para a orelha média, através da tuba auditiva, aumentando o risco de problemas como otite média serosa e otite média aguda.
Por que crianças têm maior risco de complicações?
A tuba auditiva é um canal que estabelece comunicação entre a orelha média e a região posterior do nariz, chamada nasofaringe. Sua principal função é equilibrar a pressão dentro da orelha média, para manter a capacidde vibração da membrana timpânica e permitir a drenagem de secreções.
Nas crianças, essa estrutura é mais curta, mais horizontal e funcionalmente mais imatura. Por isso, secreções e microrganismos presentes na região nasal podem chegar mais facilmente à orelha média.
Quando a lavagem nasal é realizada com pressão excessiva, principalmente em uma criança com o nariz muito obstruído, a solução salina e as secreções podem ser direcionadas para a região de abertura da tuba auditiva. Isso pode contribuir para alterações na ventilação da orelha média e, em determinadas situações, favorecer processos inflamatórios e infecciosos.
Otite pode ser consequência da técnica inadequada
Um dos possíveis problemas é a otite média serosa, também chamada de otite média com efusão.
Nessa situação, ocorre o acúmulo de líquido atrás da membrana timpânica, sem necessariamente existir uma infecção bacteriana aguda. A pessoa pode apresentar sensação de orelha tampada, redução da audição, pressão ou desconforto.
Nas crianças pequenas, entretanto, o quadro pode passar despercebido. Uma criança com otite média serosa nem sempre reclama de dor. Muitas vezes, os primeiros sinais são comportamentais:
- Aumenta o volume da televisão;
- Pede para repetir as palavras;
- Parece desatenta;
- Apresenta dificuldades escolares;
- Começa a falar mais alto.
Quando a alteração persiste por períodos prolongados, a redução da audição pode interferir no desenvolvimento da linguagem, no aprendizado e na interação social. Por isso, a presença de líquido na orelha média durante a infância merece acompanhamento adequado.
Nos adultos, a otite média serosa costuma provocar sintomas mais facilmente percebidos. A sensação de orelha tampada, a autofonia, na qual a própria voz parece excessivamente alta ou diferente, e a redução auditiva são queixas frequentes.
Quando o problema ocorre apenas de um lado e persiste, especialmente em adultos, é fundamental realizar uma avaliação detalhada da nasofaringe e da tuba auditiva para investigar outras possíveis causas de obstrução.
Outro possível problema relacionado à chegada de secreções contaminadas à orelha média é a otite média aguda.
Nesse caso, existe um processo infeccioso, geralmente acompanhado de dor, irritabilidade nas crianças, febre e redução da audição. Em alguns pacientes, a pressão provocada pelo acúmulo de secreção pode causar perfuração da membrana timpânica e saída de secreção pela orelha.
Mas como realizar a lavagem nasal com segurança?
O primeiro cuidado é evitar pressão excessiva. Mais força não significa melhor limpeza. A solução deve circular pelas fossas nasais de maneira confortável, sem provocar dor ou pressão intensa na região da face ou das orelhas.
A posição também é importante. Durante a lavagem, a cabeça deve permanecer levemente inclinada para frente e para o lado, permitindo que a solução seja eliminada adequadamente. Em crianças pequenas, a técnica precisa ser adaptada à idade e à capacidade de colaboração.
Outro erro frequente é insistir na lavagem quando o nariz está completamente obstruído. Se a solução não encontra uma via adequada de saída, o aumento da pressão dentro das fossas nasais pode favorecer desconforto e direcionar secreções para regiões indesejadas.
A higiene dos dispositivos utilizados também é fundamental. Seringas, frascos e irrigadores devem ser adequadamente higienizados e utilizados individualmente. A solução empregada precisa ser apropriada para lavagem nasal, com atenção à qualidade da água utilizada no preparo quando a solução não for industrializada.
Após a lavagem, também não é recomendado assoar o nariz com força excessiva. Esse hábito pode produzir aumento importante da pressão na região nasal e contribuir para o deslocamento de secreções em direção à tuba auditiva.
Quando é preciso procurar um médico?
Quando surgirem sintomas após uma lavagem nasal, é necessário observar alguns sinais de alerta:
- Dor na orelha;
- Sensação persistente de pressão;
- Redução da audição;
- Febre;
- Irritabilidade nas crianças;
- Saída de secreção.
O diagnóstico começa pelo exame da orelha, por meio da otoscopia ou otomicroscopia. A presença de retração da membrana timpânica, líquido atrás do tímpano, abaulamento ou sinais inflamatórios pode indicar comprometimento da orelha média.
Exames complementares podem ser realizados para identificar alterações na ventilação e presença de líquido na orelha média. Quando existe suspeita de perda auditiva, a audiometria pode determinar o grau e o tipo de comprometimento.
Nas crianças menores, podem ser necessários exames auditivos adaptados à idade.
A técnica faz toda a diferença
A lavagem nasal continua sendo uma importante ferramenta para os cuidados respiratórios. O problema não está no procedimento, mas na ideia de que qualquer técnica, pressão ou volume pode ser utilizado indiscriminadamente.
Principalmente em crianças, lavar o nariz não deve ser uma competição para descobrir quem consegue usar a maior seringa ou produzir o jato mais forte. A orientação é simples: técnica adequada, pressão controlada, posição correta e atenção aos sintomas.
Quando bem realizada, a lavagem nasal pode ser uma grande aliada da saúde respiratória. Quando realizada de maneira inadequada, especialmente com pressão excessiva, pode contribuir para problemas na orelha média.
E se, após uma lavagem nasal, surgir dor, redução da audição ou sensação persistente de orelha tampada, a melhor conduta não é simplesmente abandonar a lavagem ou esperar indefinidamente.
É buscar orientação médica para investigar a causa e diminuir os danos.
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