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Por que experiências seguem liderando o desejo de consumo no Brasil

Por que experiências seguem liderando o desejo de consumo no Brasil

Famílias priorizam cada vez mais experiências em vez da aquisição de bens materiais. Foto: Freepik

As férias escolares de julho representam um dos períodos mais movimentados do ano para diversos setores da economia. Hotéis, pousadas, restaurantes, parques, atrações turísticas, eventos culturais e serviços de transporte registram aumento na demanda impulsionado por um comportamento que vem se consolidando entre os consumidores: a priorização de experiências em vez da aquisição de bens materiais.

Viajar, conhecer novos lugares, reunir a família, viver momentos de lazer ou simplesmente fazer uma pausa na rotina tornou-se um objetivo de consumo para milhões de brasileiros. O que antes era visto como um gasto eventual passou a ser encarado como investimento em bem-estar, qualidade de vida e convivência.

A valorização das experiências no consumo

Essa mudança é observada em diferentes pesquisas de mercado. Levantamento da consultoria McKinsey aponta que consumidores de diversas faixas de renda têm direcionado uma parcela crescente de seus gastos para viagens, gastronomia, entretenimento e atividades de lazer. No Brasil, o setor turístico segue em expansão e movimenta uma extensa cadeia produtiva que envolve hospedagem, alimentação, transporte, comércio e serviços.

Segundo dados do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC), o turismo responde por aproximadamente 8% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, gerando milhões de empregos diretos e indiretos. O setor tem sido um dos principais beneficiados pela valorização das experiências como forma de consumo.

O novo conceito de valor e o impacto nas gerações mais jovens

A transformação também alterou a percepção sobre o que significa consumir bem. Em vez da simples aquisição de produtos, muitos consumidores passaram a buscar exclusividade, conveniência, personalização e experiências capazes de gerar satisfação duradoura.

Esse movimento é especialmente forte entre as gerações mais jovens, que costumam valorizar vivências, descobertas e momentos compartilhados. Uma viagem em família, um jantar especial, um show ou uma experiência gastronômica diferenciada muitas vezes ocupam espaço de destaque no orçamento que antes seria destinado à compra de bens.

Relatos de quem prioriza experiências

A médica especialista em transplante capilar Emanuela Morello é um exemplo desse novo comportamento. Para ela, as férias deixaram de ser apenas um período de descanso e se transformaram em um investimento na convivência familiar.

“Todos os anos fazemos duas viagens que se tornaram inegociáveis para a nossa família. A primeira é nas férias de julho, quando vamos para Orlando. Acho que é um destino que tem muito a ver com a família brasileira. Meus filhos se divertem muito, e nós aproveitamos para passar cerca de 15 dias completamente conectados com eles, vivendo novas experiências, conhecendo outra cultura e criando memórias que nenhum presente ou brinquedo consegue substituir”.

Ísis, Gil, Tom, Emanuela e Mia: férias deixaram de ser apenas um período de descanso e se transformaram em um investimento na convivência familiar. Foto: Acervo Pessoal

Ainda segundo ela, a outra viagem é para a temporada de neve, quando passam cerca de duas semanas esquiando com as crianças durante o inverno europeu. “São momentos que representam muito para nós. Na correria do dia a dia, trabalhando em dois estados e conciliando tantos compromissos, o tempo em família se torna ainda mais valioso. Por isso, quando chegam as férias, minha prioridade é estar ao lado dos meus filhos. São viagens que exigem investimento, sem dúvida, mas o retorno é incomparável. O que levamos delas são experiências inesquecíveis, aprendizados, convivência e memórias que vão acompanhar nossos filhos por toda a vida. Para mim, esse é um dos melhores investimentos que uma família pode fazer”.

A médica Taiana Paste compartilha da mesma visão, mas encontrou em um destino mais próximo a oportunidade de fortalecer os laços familiares. “Nas férias, eu priorizo investir em experiências. Acredito que viagens e momentos de qualidade em família são um dos maiores presentes que podemos dar aos nossos filhos. Tenho três meninas e percebo que são justamente esses momentos que ficam na memória delas e fortalecem nossos vínculos”.

Taiana e Felipe com as filhas Maria Teresa, Maria Laura e Maria Filipa: fortalecimento dos laços familiares. Foto: Acervo Pessoal

E comentou que. na correria do dia a dia, muitas vezes o tempo juntos acaba sendo reduzido. “Por isso, sempre que posso, opto por dias de descanso na nossa cabana, em Pedra Azul. Lá, nos conectamos apenas entre nossa família e a natureza. Esses momentos, para mim, representam uma oportunidade de desacelerar, estar verdadeiramente presente, criar lembranças e viver novas experiências em família”.

Estudo da Deloitte mostra que atividades ligadas ao bem-estar, ao lazer e ao desenvolvimento pessoal estão entre as prioridades de consumo dos brasileiros, impulsionando segmentos como turismo de experiência, hospitalidade, gastronomia autoral e entretenimento.

Benefícios e a continuidade da tendência

A valorização das experiências também tem influenciado o ambiente corporativo. Empresas passaram a entender que qualidade de vida e liberdade de escolha são fatores importantes para a satisfação dos colaboradores e para a retenção de talentos.

“O mercado vive uma transformação importante. As pessoas valorizam cada vez mais experiências que promovam bem-estar, convivência e qualidade de vida. Quando o colaborador tem autonomia para utilizar seus benefícios da forma que faz mais sentido para sua realidade, seja em momentos de lazer, alimentação ou outras necessidades, ele percebe de forma concreta o cuidado da empresa”, afirma Roberto Ferreira do Nascimento, diretor comercial da Comprocard.

Roberto Ferreira do Nascimento diz que as pessoas valorizam cada vez mais experiências que promovam bem-estar, convivência e qualidade de vida. Foto: Divulgação

Segundo ele, os benefícios corporativos também acompanham essa evolução do comportamento de consumo. “O colaborador percebe no dia a dia quando a empresa realmente investe em benefícios de qualidade. Não basta que o cuidado exista apenas no discurso. Ele precisa ser percebido nas experiências que a pessoa consegue viver e compartilhar com sua família”

Nesse cenário, soluções mais flexíveis ganham espaço ao permitir que cada profissional utilize seus recursos de acordo com suas prioridades, sejam elas uma viagem, um programa de lazer, uma refeição especial ou outras necessidades do cotidiano.

Uma tendência que deve continuar

Em um contexto marcado por agendas cada vez mais aceleradas, excesso de informações e alta conectividade, experiências oferecem algo que se tornou raro e valioso: tempo de qualidade. Por isso, continuam figurando entre os principais desejos dos consumidores e ajudam a impulsionar setores inteiros da economia.

Mais do que uma tendência passageira, a busca por experiências reflete uma mudança na forma como as pessoas atribuem valor ao consumo. E, ao que tudo indica, esse movimento seguirá influenciando decisões de compra, hábitos de lazer e estratégias de mercado nos próximos anos.

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