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O encontro mágico com a irara e a ética na fotografia de natureza

O encontro mágico com a irara e a ética na fotografia de natureza

Ativa, a curiosa e esperta Irara (Eira Bárbara) segue a andar pelo chão da floresta durante o dia e à noite. Ótima escaladora, suas excelentes habilidades manuais ficam evidenciadas na captura de um de seus alimentos favoritos, o mamão.
ENGLISH: The tayra is an active, curious and smart animal. It is active during the day and the evening. Tayras are great climbers and very skilled with their paws, as we can see when picking one of their favorite foods, papaya.

Quando a irara decidiu se aproximar pelo respeito: fotografia de natureza

Há mais de dez anos, passei uma semana fotografando nos arredores da Reserva Biológica de Sooretama. Era um daqueles dias, no dia do meu aniversário, em que tudo parecia bonito, mas nenhum encontro havia se transformado em imagem impactante para o livro que estávamos produzindo pelo Instituto Últimos Refúgios.

O momento mágico

Ativa, a curiosa e esperta Irara (Eira Bárbara) segue a andar pelo chão da floresta durante o dia e à noite. Ótima escaladora, suas excelentes habilidades manuais ficam evidenciadas na captura de um de seus alimentos favoritos, o mamão.

ENGLISH: The tayra is an active, curious and smart animal. It is active during the day and the evening. Tayras are great climbers and very skilled with their paws, as we can see when picking one of their favorite foods, papaya.

No fim da tarde, eu já estava um pouco frustrado. Então, em uma estrada de terra, surgiram duas iraras caminhando em nossa direção.

Parei o carro antes de alcançá-las. Elas ainda não haviam percebido nossa presença. Desci devagar, câmera em mãos, mas, assim que me notaram, correram para dentro da mata.

A reação delas foi clara: eu era uma presença estranha demais naquele ambiente.

Em vez de continuar avançando, parei.

Lembrei de algo que havia percebido em outros encontros com animais silvestres e que fui ensinado por antigos moradores locais em locais que realizei meus projetos ao longo dos anos: nossa postura pode alterar a forma como somos percebidos pelos seres da floresta.

Uma pessoa em pé, caminhando diretamente na direção de um animal, ocupa muito espaço visualmente. É uma figura alta, barulhenta, difícil de ignorar. E que historicamente, já está intrínseco no instinto dos animais como uma figura de perigo.

Abaixei o corpo e me deitei no chão, com a câmera pronta. Não para “atraí-las” nem para convencê-las a se aproximar. Apenas para diminuir minha presença e, principalmente, deixar claro que eu não seguiria avançando e que não representava uma ameaça.

A técnica funcionou novamente

Fiquei imóvel e prontamente e prontamente uma das iraras reapareceu entre a vegetação ainda apresentando o instinto de fuga. Mas então ela parou, olhou e começou a caminhar lentamente na minha direção.

Até hoje não sei exatamente o que passou pela cabecinha daquele animal. Talvez tenha sido curiosidade ou até tenha entendido que aquele ser estranho na estrada não representava uma ameaça imediata. O que sei é que ela escolheu voltar.

Essa diferença importa

Na fotografia de natureza, existe uma linha muito importante entre registrar uma aproximação espontânea e forçar uma aproximação. Essa que utilizei não era uma técnica infalível ou uma receita.

Estar camuflado com o ambiente, abaixar o corpo, permanecer silencioso ou reduzir movimentos pode bruscos, em alguns contextos, tornar uma presença humana menos intrusiva. Mas cada espécie, ou até mesmo cada indivíduo são diferentes.

Um comportamento que parece funcionar com uma irara pode ser perigoso, ou até mesmo inadequado sendo utilizado com outro animal. Com uma onça, um queixada, uma fêmea com filhotes, um animal acuado ou qualquer espécie que demonstre desconforto, a conduta deve ser outra: manter ou aumentar a distância.

O sinal mais importante não é a qualidade da imagem. É o comportamento do animal.

Se ele interrompe a alimentação, muda de rota, vocaliza, foge repetidamente, se enrijece, tenta se esconder ou demonstra agitação, a fotografia precisa respeitar. Nessas horas, a depender do objetivo da fotografia, a melhor decisão é recuar.

Ética na fotografia de natureza

Como em todas as áreas, temos que aprender com as situações e evoluir com o tempo. E a ética na área da fotografia de natureza foi assim para mim. Há 20 anos, essa era uma área nova e não havia ninguém para me ensinar as boas práticas. Mas fui aprendendo com o tempo.

Existem poucas situações em que acho justificável invadir o espaço de um animal silvestre de forma muito intrusiva. Em situações de pesquisa ou ações de conservação, ao meu ver, é aceitável. O simples fato de ter uma foto para satisfação pessoal, nem sempre. Eu particularmente, sempre tento avaliar os benefícios que aquela imagem vai trazer para aquela espécie e seu ecossistema.

De qualquer forma, naquele dia permaneci parado. A irara se aproximou por escolha própria, observou-me por alguns instantes e depois seguiu seu caminho. Foi um encontro breve, silencioso e muito mais marcante do que outras fotografias planejadas que eu já havia feito. Até pensei que era um presente de aniversário que a natureza havia me dado.

A Irara

A irara (Eira barbara), também conhecida como papa-mel, é um mustelídeo ágil, inteligente e de dieta bastante variada, que inclui frutos, insetos, mel e pequenos vertebrados (e às vezes, não tão pequenos assim). Ocorre em todos os biomas brasileiros e depende especialmente de ambientes florestais bem conservados.

Embora a espécie tenha sido classificada como Menos Preocupante na avaliação nacional de animais ameaçados de extinção, atropelamentos e mortes por retaliação são registrados com frequência, reforçando a necessidade de monitoramento e proteção de seus habitats.

Propósito

Nesse ponto, acho que a fotografia (e produtos culturais de forma geral, podem ajudar a proteger os ecossistemas). Dessa forma, para mim, fotografar natureza não deve ser sobre conquistar um animal ou provar que conseguimos chegar perto dele. Deve ser sobre aprender sobre aquele assunto e tentar ajudá-lo.

Naquele aniversário, voltei para casa com uma fotografia especial. Uma lembrança que me fez refletir sobre minha relação com a natureza e como gosto de fazer minhas imagens: às vezes, a natureza se aproxima quando percebe que você finalmente aprendeu a respeitá-la.

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